A armadura desconhecida de D. Manuel I: o arnês do Musée de l’Armée (Texto publicado a 31/05/2019)

Caros leitores, é com prazer que hoje lançamos para vosso conhecimento alguns resultados muito preliminares da investigação, ainda em fase de pesquisa pré-artigo, do nosso colega Anton Stark sobre uma armadura de Manuel I (r. 1495-1521) no Musée de l’Armée, em Paris. Este arnês, infelizmente desconhecido tanto do grande público como da maioria dos peritos em História Militar (!), merece toda a nossa atenção, devido às informações importantes com que contribui para o conhecimento do armamento régio em finais da Idade Média. Todos os parabéns ao nosso co-administrador!

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Visão de corpo inteiro do arnês, sem os elementos de reforço. Retirado de Musée de l’armée, Paris: Les armes et la vie, p. 121.

Está guardada numa grande vitrine, na secção de armaduras do século XVI do Musée de L’Armée, em Paris. Um contorno relativamente sombrio e até algo desengonçado, um entre demais, não fosse o elevado grau de decoração ou, pelo menos, a placa indicativa onde se lê: “Armure dite d’Emmanuel ler, dit le Fortuné, roi du Portugal (1496-1521)”. Porque é efectivamente de uma armadura ligada a D. Manuel de que estamos a falar. Mas o que faz um arnês real português em França? E, melhor ainda, porque é que ninguém sabe dele por cá?

A Garnitura

O arnês que nos encara do outro lado do vidro é uma peça de produção italiana, da mão do mestre armeiro Nicolau ou Niccolò Silva (activo entre 1511 e 1549, segundo os arquivos históricos de Milão). A punção (marca) de armeiro patente no arnês não nos deixa margem para dúvidas. Este conjunto é, aliás, um dos únicos quatro arneses de Silva que chegaram até nós, todos eles reunidos – vá-se lá saber por que voltas do Destino – no Musée de l’Armée. Arnês… não bem; ou, não apenas. O conjunto é sim uma “garnitura”, ou seja, um arnês com peças adicionais, adaptável ao combate de campo ou à participação nas lides cavalheirescas – torneios, jogos militares e equestres, paradas -, consoante a necessidade. Apesar de italiano, o conjunto não deixa de apresentar algumas influências alemãs, perfeitamente naturais neste período de confluências na armaria europeia. Tal como se nos apresenta hoje, o arnês integra um elmete com gorjal integrado, espaldeiras (tipicamente italianas – assimétricas, a mais pequena no ombro direito e a maior no esquerdo, com um reforço de pescoço), rerebraços, codais, avambraços e guantes pesadas; couraça sem panceira mas com riste, fraldão e escarcela conjuntos, com o aspecto de uma saia de escamas; coxotes, joelheiras, grevas e sapatos-de-ferro. A isto se juntam uma placa de reforço do peito, belíssimamente decorada com um padrão circular de 24 raios; cotoveleiras de reforço, uma joelheira e restos de uma escarcela direita. É um autêntico puzzle, portanto, a ser montado e desmontado de diferentes maneiras de acordo com o uso a que se destina.

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Pormenor da decoração da guante. Os nossos agradecimentos a Pierre Terjanian, a quem a fotografia e todos os seus direitos pertencem por direito. Retirada de https://www.pictame.com/…/1414828952338096492…

Como seria de esperar numa peça destas, e desta época, há decoração para dar e vender – e ainda bom dinheiro daria, considerando que muita dela consiste em gravações a ouro. A mestria burilada dos artesãos milaneses brilha em quase todas as superfícies, mesmo onde o polimento foi recoberto e desbotado pela patina dos anos. Particular destaque deve ser dado às guantes, com o seu esquema decorativo de floreados sobre o simples relevo de aço; e aos coxotes, as placas que cobrem a perna das virilhas ao joelho: aqui se retratam vários episódios religiosos ou mitológicos, muito ao gosto do Renascimento Italiano, incluindo cenas da vida de São João Baptista, por exemplo, ou uma gravação relativa a Orfeu. Ao longo das bandas laterais das escarcelas, por entre arabescos, encontramos finalmente a esfera armilar que nos permite ligar de forma praticamente irrefutável esta armadura a D. Manuel I.

À primeira vista, parece não bater a bota com a perdigota em termos decorativos. A aparente disparidade de técnicas usadas entre diferentes elementos do arnês pode apontar para alterações posteriores ou para o emparelhamento de peças de diferentes proveniências na grande totalidade do conjunto – nem uma nem outra coisa seriam de estranhar. No entanto, uma análise cuidada da garnitura mostra que, apesar de algumas reparações e redecorações mais tardias, se aplicam os mesmos padrões – arabescos, cordoamento, florões – em todo o conjunto, em zonas descontínuas. Não obstante substituições e alterações que foram sendo feitas ao longo do tempo (o interior dos avambraços, por exemplo, é de manufactura relativamente recente), estamos perante um conjunto razoavelmente uniforme, um testamento em aço da mestria dos armeiros milaneses (e, em muito menor medida, dos restauradores oitocentistas) em época de transição para novos modelos de armamento.

O Homem por Detrás do Aço

E a peça em si está apresentada. Mas como é que uma armadura real portuguesa foi parar a Paris? E como podemos determinar que a armadura pertenceu de facto a D. Manuel?

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Pormenor da esfera armilar, no coxote esquerdo. Adaptado de Musée de l’armée, Paris: Les armes et la vie, p. 121.

Comecemos pelo mais fácil. Que a armadura está ligada ao nosso Afortunado é inegável: a esfera de D. Manuel, como grande parte das divisas reais europeias, é única e inconfundível. O problema que se nos coloca é saber de que forma se relaciona o homem e a peça. A hipótese mais óbvia e imediata é naturalmente a de o arnês ser pertença real, e tudo na peça para isso aponta — o nível de elaboração, passando pelo fim a que se destina, ao esquema decorativo e aos materiais usados, tudo no conjunto sugere um cliente de uma alta nobreza, no mínimo dos mínimos, e com a divisa à mistura… . Contudo, sem mais registos que não a esfera, não sabemos se o arnês teria sido efectivamente intencionado para uso exclusivo de D. Manuel. Poderia constituir um presente do rei, para alguma outra potestade ou para agraciar algum parente? É uma possibilidade. Vejam-se a título de exemplo os vários arneses oferecidos por Maximiliano I, Imperador do Sacro-Império Romano-Germânico — o belo arnês em estilo “gótico”, obra do mestre-armeiro Lorenz Helmschmied, oferecido ao Arquiduque Sigmund do Tirol em 1484, por exemplo; os dois arneses que se guardam no Kunshistorisches Museum de Viena, encomendados entre 1512 e 1514 para o seu neto, o futuro Imperador Carlos V; ou o arnês enviado a Henrique VIII de Inglaterra em 1514, feito pelo artesão austríaco Konrad Seusenhofer e do qual só nos resta um bizarro elmete de torneio, com cornos e óculos e um sorriso rasgado (uma história para outra altura). Não temos, no entanto, hipótese de determinar esta possibilidade.

Um Arnês, Muitas Incógnitas

Já quanto ao peculiar percurso que terá feito para chegar a Paris, esse é outro mistério. Sabemos bem que o arnês se encontrava elencado no inventário da colecção privada do coleccionador francês Georges Pauilhac, doada ou rematada por atacado pelo Musée de l’Armée entre 1958 e 1964. Estamos a falar de uma colecção enorme de armamento vário – incluindo várias peças ibéricas -, composta de várias outras pequenas colecções angariadas ao longo dos anos – incluindo colecções ibéricas, como a colecção Estruch y Cumella de Barcelona -, mas é por aqui que se fica o nosso conhecimento. Porque Georges Pauilhac era um excelente coleccionador, com bom olho para os originais, mas um péssimo gestor e arquivista – de tal forma que, segundo Olivier Renaudeau (director do departamento de armas e armaduras antigas do Musée de l’Armée), não sabemos rigorosamente sobre como ou quando ou a quem adquiriu ele este arnês. Tudo o que sabemos é que já no seu inventário este conjunto aparecia associado a D. Manuel, e assim ficou. Terá sido vendido ou passado a algum familiar d’O Afortunado após a sua morte (ou até em vida), tido sido expedido para terras de Espanha (tal como aconteceu com as tapeçarias de Pastrana, por exemplo), e posteriormente adquirido por Pauilhac após a compra de alguma armaria em leilão? Terá vindo do Arsenal Régio de Lisboa de 1834, sido posta a circular em colecções privadas e arranjada mais tarda por Pauilhac a algum coleccionador seu conhecido?

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Pormenor do coxote esquerdo, demonstrativo do elevado grau de decoração deste componente do arnês. Os nossos agradecimentos a Marina Viallon, a quem a fotografia e todos os seus direitos pertencem por direito.

Certo é que, neste momento, o arnês é completamente desconhecido em Portugal… o que é ainda mais surpreendente se tivermos em conta que já cá foi exposto, em 1983. Durante a XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura, instalou-se na Torre de Belém o núcleo expositivo “Armaria dos séculos XV a XVII” e lá figurava o arnês, sem quaisquer honras de estado. A sua entrada no catálogo oficial “A Mão que ao Ocidente o Véu Rasgou – Armaria” limita-se a uma (péssima) fotografia de corpo inteiro e a uma minúscula descrição expositiva, e é tudo. Porquê esta ignorância, quase a roçar o repúdio, a que foi votado um conjunto tão importante para a nossa História colectiva? É mais uma pergunta, das muitas que ficam para serem devidamente desenvolvidas noutra ocasião; e fica também o belíssimo arnês – um bocadinho de portugalidade feita à italiana com laivos germânicos, como convém ao cosmopolitismo luso do século XVI.

BIBLIOGRAFIA

Blair, C. (1958). European Armour circa 1066 to circa 1700. London: B. T. Batsford

Charles, R. (1965). La collection Georges Pauilhac au Musée de l’armée. Paris: Revue française

Comissariado para a XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura (1983). A Mão que ao Ocidente o Véu Rasgou – Armaria [Catálogo de exposição]. Lisboa: Comissariado para a XVII Exposição Europeia de Arte Ciência e Cultura

Daehnhardt, R. (1998). Acerca das Armaduras de D. Sebastião. Lisboa: Publicações Quipu

Mann, J. (1929). “Notes on the armour of the Maximilian period and the Italian wars”. Em Archaeologia, V. 79, pp. 217-244. London: Society of Antiquaries of London

Pyhrr, S. (1983). “Some Elements of Armor Attributed to Niccolò Silva”. Em Metropolitan Museum Journal, 18. New York: The University of Chicago Press/The Metropolitan Museum of Art pp. 111-121. Retirado de DOI: 10.2307/1512802

Reverseau, R. (1982). Musée de l’armée, Paris: Les armes et la vie. Paris: Dargaud

AGRADECIMENTOS

A Manuel Ferro, que nos chamou a atenção para este arnês com as suas fotografias.

A Olivier Renaudeau, pela amabilidade com que nos respondeu a algumas questões.A Pierre Terjanian, pela sua pequena mas graciosa publicação sobre o uso de gravações decorativas em armamentos do século XVI, usando as guantes deste arnês como exemplo (publicação disponível aqui: https://www.pictame.com/…/1414828952338096492…) .

A Marina Viallon, pela fotografia detalhada do coxote esquerdo.

550 anos da conquista de Arzila (24 de Agosto de 1471) – PARTE I

No contexto dos 550 anos da conquista de Arzila por Afonso V (24 de Agosto de 1471), o “Repensando” convidou o historiador Paulo M. Dias, especialista com dissertação escrita sobre o tema, a falar-nos um bocado sobre o estado da arte relativo a esta expedição, glorificada nas famosas Tapeçarias de Pastrana. Sem mais delongas, passemos à primeira parte do texto.

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Cidade de Arzila na gravura do Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun e Franz Hogenberg (1572), onde se observa a cidade reconstruída pelos portugueses.

A 24 de Agosto de 1471, dia de S. Bartolomeu, uma hoste liderada por D. Afonso V (r. 1438-1481) tomou de assalto a cidade marroquina de Arzila. Passados exactamente 550 anos, importa relembrar este acontecimento de modo a compreender a sua importância no quadro mais vasto do processo expansionista português no Magrebe nos finais da Idade Média.

A conquista de Ceuta, em 1415, abriu caminho a mais de um século de intensa actividade militar portuguesa na região. A política expansionista em Marrocos foi sendo perseguida ao longo do século XV, nem sempre com sucesso – é bem conhecido o duro cativeiro do infante D. Fernando (1400-1443), entregue como penhor da retirada portuguesa após o chamado desastre de Tânger de 1437 – e nem sempre consensual nos círculos cortesãos. A expansão no norte de África ganhou maior centralidade com D. Afonso V, rei que acabaria por liderar pessoalmente a hoste na conquista de Alcácer Ceguer em 1458 e numa campanha fracassada contra Tânger em 1463-1464. É nesta última que se encontra a génese mais imediata da conquista de Arzila.

Nos primeiros meses de 1471, D. Afonso V reuniu em Lisboa o conselho régio para planear nova expedição contra Tânger. Para o rei, urgia tomar a cidade que por duas vezes em menos de 30 anos frustrara os planos da Coroa, com consequentes efeitos nefastos para a própria família real. De acordo com os cronistas Rui de Pina e Damião de Góis, a maioria dos conselheiros opunha-se ao lançamento de uma nova expedição contra Tânger. Para demoverem o rei do seu intento, alegaram não só que aquela cidade era demasiado grande e bem fortificada para atacar, mas também que as campanhas anteriores tinham exaurido o tesouro régio, pelo que não havia dinheiro suficiente para recrutar tropas em número suficiente. Porém, os argumentos dos conselheiros, conforme apresentados pelos cronistas, não são inteiramente factuais.

Tânger era, sem dúvida, uma cidade imponente e bem fortificada, e, portanto, difícil de atacar. Mas também o era por ocasião das campanhas anteriores, o que não impedira o seu lançamento. Por outro lado, embora as campanhas norte-africanas fossem particularmente dispendiosas, em 1471, a Coroa foi capaz de reunir entre 112 000 e 135 000 dobras de ouro para pagar tudo o necessário (combatentes, embarcações de transporte, armamento e mantimentos), o que revela que o tesouro régio não estava de modo algum vazio. Comparativamente, a campanha desse ano foi consideravelmente mais cara que as expedições de 1437 e de 1463-1464, que custaram à Coroa, respectivamente, 57 000 e 35 000 dobras. Se não faltou dinheiro, também não faltaram combatentes. Ao todo, terão sido recrutados entre 23 000 e 30 000 homens, o que corresponde à maior hoste reunida em Portugal nos finais da Idade Média.

Se não faltavam meios materiais nem humanos, o que terá motivado a oposição dos conselheiros a um novo ataque a Tânger? A resposta é simples: a nobreza não queria enfrentar a morte ou o cativeiro caso um novo ataque fracassasse. As derrotas das duas expedições anteriores tinham sido particularmente pesadas para a fidalguia: no último assalto a Tânger em 1464, tinham falecido 200 fidalgos e feitos cativos 100 outros. Entre as baixas contavam-se o conde de Marialva, falecido, o marechal do reino e o futuro conde de Portalegre, ambos capturados. Estes fracassos estariam ainda bem vivos nas mentes dos conselheiros régios em 1471. Pelo menos um destes, D. Álvaro de Castro, conde de Monsanto, tinha participado em ambas as campanhas, e perdido um filho, D. Jorge de Castro, na segunda. Perante tamanha mortandade, à qual não escapava a mais importante fidalguia, imperava a relutância em regressar a Tânger.

Como alternativa, e sem perder de vista a possibilidade de um futuro assédio a Tânger, o conselho régio sugeriu um ataque a Arzila, um alvo comparativamente mais fácil de tomar. Situada aproximadamente 40km a sudoeste de Tânger, Arzila teria uma população de entre 5000 e 7000 habitantes. Protegida por muralhas de taipa com torreões colocados a intervalos regulares, a cidade dispunha de uma alcáçova fortificada e de um porto que, embora de acesso perigoso, mantinha alguma importância comercial, o que a tornava um alvo apetecível em termos económicos. Perante a recusa do conselho em apoiar um novo assalto a Tânger, D. Afonso V aceitou a sugestão alternativa. De forma a perceber a viabilidade de Arzila enquanto alvo, foram para ali enviados dois espiões: Pêro da Alcáçova, escrivão da Fazenda e homem da confiança pessoal do rei; e Vicente Simões, experiente marinheiro. Disfarçados de mercadores para não levantar suspeitas, percorreram as ruas da cidade de modo a analisar as suas defesas e as condições do porto, elementos que mais tarde transmitiram ao rei e ao conselho.

Certamente satisfeito com as informações veiculadas pelos espiões, D. Afonso V deu início aos preparativos. A 4 de Fevereiro de 1471, João Eanes, vintaneiro, mestre e piloto residente no Porto, foi mandatado com poderes para fretar navios de transporte na Galiza e Biscaia. Dois dias mais tarde, nova carta régia procurava aliciar navios biscainhos a dirigirem-se aos portos portugueses. Ao longo dos meses seguintes, foram-se congregando em Lisboa, no Porto e em Lagos centenas de embarcações de vários géneros e dimensões. Ao todo, terão sido reunidas entre 388 e 477 velas com o objectivo de transportar as tropas até Marrocos.

Entretanto, os vários contingentes da hoste régia foram sendo convocados para participar na armada. O núcleo duro era constituído pelos séquitos do rei e do príncipe herdeiro, o futuro D. João II (1455-1495). A estes, juntaram-se as mesnadas dos grandes senhores laicos, como o duque de Guimarães ou os condes de Vila Real, Faro, Marialva e Monsanto, e dos prelados mais importantes, entre os quais os arcebispos de Lisboa e Braga, bem como os bispos de Coimbra, Porto e Guarda. As milícias dos aquantiados, dos besteiros do conto e de cavalo, mais numerosas, embora menos contempladas pelas fontes, assim como os espingardeiros também tomaram parte na campanha. À armada juntaram-se ainda alguns cavaleiros das Ordens Militares com os respectivos séquitos, assim como um importante contingente de pelo menos 1162 homiziados, criminosos que utilizaram a participação na armada para obter o perdão dos seus crimes. Em 1471, os combatentes que integraram a hoste e a armada eram oriundos de todas as comarcas do reino, inclusive da ilha da Madeira, Ceuta e Alcácer Ceguer. Também alguns estrangeiros, sobretudo Ingleses e Castelhanos, acabaram por se juntar à armada.

Outras questões logísticas, vitais ao sucesso de qualquer campanha, foram igualmente contempladas pela Coroa. A alimentação das tropas foi acautelada com a compra de grandes quantidades de biscoito, carne e pescado. Os fornos de biscoito de Lisboa terão desempenhado um papel particularmente importante, já que em 1472 os oficiais que lá trabalhavam foram galardoados com importantes privilégios por serviços prestados à Coroa. Em preparação da armada, a Coroa terá também procedido à compra e armazenamento de armamento defensivo e ofensivo, assim como de peças de artilharia pirobalística, elementos representados com grande clareza nas Tapeçarias de Pastrana. Em termos financeiros, os valores gastos na campanha, que atrás referimos, foram bastante elevados. Uma bula de cruzada emitida pelo Papa Paulo II, à qual estavam sempre associados benefícios financeiros, terá ajudado a financiar a empreitada.

Em inícios de Agosto de 1471, a frota armada no Porto e comandada pelo duque de Guimarães juntou-se em Lisboa à frota comandada pelo próprio rei. Entretanto, o governo do reino fora entregue à filha do monarca, a infanta D. Joana, e ao duque de Bragança, que o rei dispensara de servir na campanha dada a sua avançada idade. A ausência de ventos favoráveis acabou por atrasar a partida da armada, que só veio a ocorrer a 15 e 16 de Agosto. A armada rumou então a Lagos, o último ponto de reunião antes da travessia do chamado Mar das Éguas, onde se juntou à frota reunida no Algarve, que contava com algumas embarcações oriundas de Alcácer Ceguer. Só em Lagos é que o rei revelou ao grosso da hoste o destino da armada, até então mantido sob o maior segredo: Arzila.

– Paulo M. Dias

AOS SEGUIDORES DO “REPENSANDO A IDADE MÉDIA”: NOVO ENDEREÇO NO FACEBOOK

Ontem, na sequência de forte discussão interna seguida de um autêntico golpe de estado, a página “Repensando a Idade Média” – pelo menos, tal como a conhecíamos no Facebook – morreu.

Esta discussão surgiu entre o administrador Pedro Gaião, que colabora de forma paga com a página História Islâmica, e os restantes administradores do Repensando, que não se revêem de todo nos métodos pouco sérios de investigação (ou falta dela) e falsidades históricas propalados pela dita página, totalmente antitéticos ao espírito do “Repensando” – coisa que, aliás, várias vezes assinalámos. Após ter sido salientado ao administrador Pedro Gaião o claro conflito de interesses entre as duas páginas, e depois de um forte debate ético, Pedro Gaião, co-fundador da página, decidiu fazer uso de poderes que lhe foram confiados em boa-fé e reduziu todos os demais administradores ao cargo de editores, sujeitando a página e todos os seus conteúdos ao seu crivo pessoal.

O Repensando quer-se uma página colegial, e não uma monarquia. É um encontro de mentes e de divulgação da História medieval (e portuguesa em particular), e não um feudo subjugado à vontade de um pequenino tirano. Assim, e por não nos revermos de todo nesta atitude suja e petulante do administrador Pedro Gaião, decidimos abandonar a página e vários anos de trabalho e dedicação. O Repensando está morto, longa vida ao Repensando.

Mas é este o fim do projecto? Não. Esta é uma oportunidade para nos reinventarmos, para ponderarmos o futuro – para, enfim, nos repensarmos a nós mesmos e ao projecto. Convidamos os nossos seguidores e demais interessados a manterem um olhinho atento no horizonte, à espreita de algo melhor que surgirá, quase sebasticamente, por entre o nevoeiro…

Novo endereço do Repensando a Idade Média, livre da tirania de Pedro Gaião: https://www.facebook.com/profile.php?id=100072822075986&show_switched_tooltip=true

Com um grande abraço,

Os Antigos Administradores do “Repensando”

O Castelo de Guimarães: das origens ao século XV – Parte II (07/07/2018)

Figura 1. Vista aérea do castelo de Guimarães. Agradeço ao Pedro Alves por me ter cedido a imagem.
Figura 2. Entrada da torre de menagem. Esta apresenta uma porta com arco perfeito. O passadiço seria originalmente levadiço, permitindo assim a defesa dos homens do alcaide em caso de penetração inimiga na muralha.

Como já referimos na 1ª parte, o castelo de Guimarães sofreu reformas de adaptação à arquitectura militar gótica na segunda metade do século XIII (Fase IV). Estas obras já estão atestadas em 1254, e talvez continuariam pelo menos até 1321, quando o lavor do castello de Guimarães é ainda mencionado na chancelaria de D. Dinis. A reforma gótica, com pedras sigladas, assistiu à instalação dos oito torreões da muralha, instalados nas áreas mais sensíveis como as Portas da Vila (Figura 3) e da Traição (Figura 4) ou vários dos ângulos da fortificação, e ao aumento em altura ou reconstrução de muros do castelo, subindo assim o nível do adarve* para o seu nível actual. A isto acresce a construção da torre de menagem, com quase 25 metros de altura e dotada originalmente de um hurdício, uma estrutura de madeira pela qual se poderiam atirar projécteis sobre os atacantes (Figura 5). O passadiço por onde hoje os turistas passam para ver a exposição dentro da torre poderia ser levantado em caso de necessidade (Figura 2).

Figura 3. A Fachada Poente do castelo, correspondente à Porta da Vila.
Figura 4. A fachada Nascente, correspondente à Porta da Traição.
Figura 5. Maquete do castelo na época de D. Dinis, com o hurdício na torre de menagem. Retirado da tese de Rafael Azevedo.

A todos estes melhoramentos, acresciam-se as muralhas da vila, em construção também desde 1254 até pelo menos 1318, que para além de oferecerem protecção às casas do burgo, também permitiam evitar que o castelo se enchesse com refugiados à procura de abrigo. O castelo está articulado com estas muralhas, parcialmente preservadas nos pontos de contacto com os torreões Norte e Sul.

Figura 6. Secção da muralha da vila comunicante com o Torreão Noroeste.

Se o castelo românico era um osso duro de roer e palco importante da História portuguesa, a fortificação gótica desempenhou também um papel importantíssimo em vários dos conflitos internos e externos durante o século XIV, resistindo com mais ou menos sucesso a vários cercos em conjunto com as muralhas da cidade, como veremos a seguir de modo sucinto:

– 1322: Guimarães resistiu, entre finais de Março e inícios de Abril, ao cerco do Infante Afonso, sob o comando do meirinho-mor do reino (simplificando para quem não anda a par da estrutura administrativa da época, uma espécie de “chefe da polícia”) e alcaide deste castelo, Mem Rodrigues de Vasconcelos, com a ajuda dos besteiros do conto locais. Assim, após 10 dias de cerco, foi travada a ofensiva fulminante do infante desde Coimbra e D. Dinis pôde recuperar a iniciativa com um ataque sobre Leiria e Coimbra. Infelizmente, não se conhece o exacto estado das obras das defesas de Guimarães nesta altura. Embora a sua conclusão seja provável, pelo menos no relativo ao castelo, até pela defesa bem-sucedida do alcaide vimaranense, é possível que ainda não tivessem sido completadas nesta altura;

Figura 7. Enrique II e Juan I de Castela. Pormenor do Retábulo da Virgem de Tobed, Museu do Prado.

– 1369: a Primeira Guerra Fernandina ainda é mal compreendida pela historiografia portuguesa em certos aspectos e o seu estudo não é apropriado para uma página de divulgação histórica como o Repensando, contudo tentemos um resumo do cerco de Guimarães nesta altura, com base num dos cronistas mais fascinantes e problemáticos da Idade Média portuguesa: Fernão Lopes, na sua Crónica de D. Fernando. Mais uma vez, a vila de Guimarães travou uma ofensiva, desta vez estrangeira, no quadro da Primeira Guerra Fernandina. Após o “passeio militar” de Fernando I na Galiza, Enrique II de Castela reagiu com a sua própria expedição pela Galiza e mais tarde por Entre-Douro-e-Minho. Após a tomada por traição do castelo de Braga, as forças castelhanas dirigiram-se a Guimarães, tendo começado o cerco a 1 de Setembro (data um pouco problemática) após algumas escaramuças iniciais. Rapidamente, o cerco escalou de intensidade, procurando o rei castelhano vencer a vila, quer com assaltos continuados com máquinas de cerco, quer com uma tentativa de infiltração de Diogo Gonçalves de Castro, que se fazia passar por um homem do julgado de Guimarães e procurava incendiar a vila de modo a distrair os habitantes de um ataque castelhano. Infelizmente para os sitiantes, o agente castelhano foi reconhecido e morto. Por outro lado, os defensores retaliavam com as suas próprias máquinas de cerco e assaltavam o arraial castelhano, de onde poderão ter libertado o conde petrista Fernando de Castro, prisioneiro de Enrique II (ou talvez ele se tenha conluiado com o homem que o guardava para fugir e encontrar refúgio no castelo). De qualquer das maneiras, este cerco acabou quando Fernando I liderou um exército de socorro desde Coimbra até ao Porto, forçando Henrique II a retirar-se. Contudo, como retaliação o rei castelhano pôs Trás-os-Montes a ferro e fogo aquando da sua retirada;

Figura 8. Torre do Sino de Correr, erroneamente chamada Torre da Forca. Aqui foi instalado, no século XIV, o sino que era tocado quando as portas da vila de Guimarães eram fechadas ao anoitecer.

– 1385: depois da aclamação de João I como rei a 6 de Abril de 1385, Nun’Álvares Pereira começou a submeter à sua autoridade a maior parte dos castelos no Entre-Douro-e-Minho, onde só o Porto e o castelo de Gaia (destruído em 1384 pelas gentes da cidade vizinha…) tinham voz pelo Mestre de Avis. O rei, depois de ter passado pelo Porto, juntou-se ao Santo Condestável e cercaram vários castelos e vilas, incluindo o de Braga, Guimarães ou Ponte de Lima. Em Guimarães, o alcaide era desta vez Aires Gomes da Silva, o antigo aio de Fernando I, que apesar de doente era um comandante muito experiente. Após conseguir dominar a vila com a ajuda de dois homens locais que lhe abriram as portas, o cerco do castelo começou a 8 de Maio. Com a ajuda de artesãos do Porto e após concentrar homens e recursos, o novo monarca português ordenou a construção de uma bastida (uma plataforma de onde os atacantes poderiam ganhar vantagem de altura sobre os sitiados e disparar sobre o adarve com bestas ou balistas) e de escadas, usadas para um primeiro assalto ao castelo. Com uma das escadas quebradas por uma pedra atirada pelos sitiados, João I ordenou a retirada, mas de seguida tentou incendiar as portas sem sucesso. Em virtude deste assalto, ou talvez de um ataque fracassado ao arraial do rei que teria acabado no incêndio das portas e a entrada da hoste régia na muralha do castelo, Aires Gomes da Silva pediu preitesia** a João I. O acordo foi firmado, todavia as hostilidades recomeçaram quando os atacantes, sem consentimento régio, puseram fogo às portas do muro e penetraram na cerca velha, de acordo com Fernão Lopes. Quando soube disto, João I pediu desculpas a Gomes Aires da Silva, mas recusou-se a devolver o controlo sobre os muros… Os combates recomeçaram até que o mensageiro enviado pelos sitiados a Juan I noticiou a falta de ajuda vinda de Castela (o monarca castelhano planeava uma nova invasão). Finalmente, o alcaide vimaranense rendeu-se provavelmente em inícios de Junho e saiu da vila, morrendo pouco depois.

Figura 9. O Paço do Alcaide (séculos XV-XVI).

Após a revolução de 1383-1385, posto que não tenha experimentado mais episódios militares de monta, o castelo não foi abandonado subitamente. Bem pelo contrário, na viragem do século XIV para o XV, provavelmente por iniciativa de João I, foi edificada uma barracã. Mais tarde, edificou-se o Paço do Alcaide (Figuras 9 e 10), erroneamente associado com o conde D. Henrique, que acabou por receber uma reforma manuelina em inícios do século XVI. A este propósito, comentamos que o Paço, com 4 andares e uma área média de 100-120 metros quadrados, é uma estrutura invulgar no panorama dos castelos medievais portugueses, sendo as habitações dos alcaides geralmente bem mais modestas na documentação e vestígios materiais existentes. O declínio só começaria a ocorrer já no século XVI, devido à evolução da prática bélica, tendo o castelo passado a albergar a prisão vimaranense.

Figura 10. Vista exterior do Paço do Alcaide do castelo de Guimarães (séculos XV-XVI).

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*Adarve – Passeio da ronda de um castelo.

**Preitesia – trégua, por um período negociado, durante a qual os sitiados num cerco pediriam ajuda ao seu senhor, que era no caso citado aqui Juan I e D. Beatriz. Depois, ou seria enviada ajuda para levantar o cerco ou o castelo seria rendido aos atacantes no fim do período estipulado. Os sitiados poderiam sair em liberdade e com as suas armas se assim o entendessem, com a sua honra intacta.

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Fontes usadas:

Azevedo, Rafael da Silva (2011). Evolução dos Sistemas Fortificados: o Castelo e as Muralhas de Guimarães. Dissertação de Mestrado Integrado em Engenharia Civil apresentada à Escola de Engenharia da Universidade do Minho.

Barroca, Mário Jorge (1990/1991). Do castelo da reconquista ao castelo românico (séc. IX a XIII). Portugália, vols. 11-12, pp. 89-136.

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~ José Luís Pinto Fernandes

O Castelo de Guimarães: das suas origens ao século XV – Parte I (24/06/2018; versão revista)

Figura 1. Castelo de Guimarães visto de Nordeste.

Publicamos hoje um texto nosso sobre o Castelo de Guimarães, editado e revisto para corrigir alguns detalhes sobre a fundação do Castelo que entretanto se alteraram em bibliografia mais recente, sendo esta apresentada toda na segunda parte do texto de forma integrada. Optamos por esta divisão em 2 partes devido à extensão do texto, indo a primeira parte até meados do século XIII enquanto a segunda estudará a fortificação tardo-medieval. Não poderíamos terminar esta apresentação sem agradecer ao Professor Mário Barroca em pela sua amabilidade em disponibilizar-me algumas páginas de um seu artigo sobre a fase românica do Castelo de Guimarães.

Figura 2. Visão aérea do castelo. Adicionei esta fotografia de modo a que os nossos seguidores possam ter mais ou menos uma ideia do seu aspecto global.

O Castelo de Guimarães é um dos monumentos mais famosos de Portugal como símbolo da nacionalidade e objecto de associação imediata por parte dos portugueses quando se fala da Idade Média ou da formação de Portugal, mas a História desta fortificação é bem mais complexa do que a mitologia vimaranense ou do Estado Novo, ainda muito populares na concepção histórica da população portuguesa, deixam entender à partida.

Porém, antes de mais, voltemos às origens de Guimarães de modo a podermos compreender o porquê da edificação da fortaleza pré-românica original. A condessa Mumadona Dias, como é bem sabido, fundou um mosteiro na Villa Vimaranes por volta de 950 – desde 1107 a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira. De acordo com um codicilo de 968 (Figura 3) ao seu testamento (959), é afirmado que um castelo chamado de São Mamede tinha sido erigido por sua iniciativa no Monte Latito para proteger a comunidade monástica de ataques de “gentios”, que tinham ocorrido anteriormente numa altura indeterminada pela nossa fonte.

Contudo, é possível datar a fortificação um pouco mais precisamente e concluir que o castelo terá sido erigido para protecção monástica também em 950-951. Efectivamente, a doação da villa de Melres, datado de 18 de Maio de 951 mas provavelmente redigido em 18 de Dezembro de 950, menciona a fortificação. Para além deste documento, um outro texto datado em 957 que se refere ao mosteiro como ad radice Montis Latito, o que sem excluir uma pura menção geográfica, provavelmente tem um significado militar como em outros documentos da época, pode também ser na verdade um diploma de 950-951 por referir o rei Ramiro II de Leão, falecido no último ano. Apesar da indicação de ataques na zona, o propósito defensivo original do castelo ainda não está plenamente esclarecido: podemos fazer um paralelismo com outras fortificações na Galiza provável ou certamente destinadas para a defesa contra os Viquingues, mas também havia ataques marítimos regulares vindos do al-Andalus, pelo menos até bem entrado o século XII. Dada a laconicidade das fontes, não podemos concluir a precisa identidade dos atacantes em meados do século X e talvez a fortificação até tivesse sido construída contra ambos, daí possivelmente a própria ambiguidade de “gentios”.

Figura 3. Codicilo datado da Era de 1006 (968 d.C.) ao testamento de Mumadona Dias (959). Este é um dos primeiros documentos a mencionar o Castelo de São Mamede.

De acordo com este documento, a região tinha sido atacada por gentios: Post non multo uero temporis quod hunc series testamenti in conspectu multorum est confirmatum persecutio gentilium irruit in huius nostre religionis suburbiu. Como resposta aos ataques, ter-se-ia erigido o castelo: et ante illorum metum laborauimus castellum quod uocitant sanctum mames in locum predictum alpe latito quod est super huius monasterio constructum et post defensaculo huius sancto cenobio concedimus.

Desengane-se quem pensar que um castelo pré-românico seria como o de hoje, reconstruído vários séculos depois como veremos a seguir. Talvez fosse como muitos outros castelos roqueiros e tivesse apenas um muro aproveitando a topografia do terreno e eventuais trabalhos com terra, o que parece ser sugerido por essa primeira provável menção ao castelo ou até pelo termo laboravimus usado pela condessa em 968. Também, como Hélio Pires sugeriu, seguindo Fernando José Teixeira, poderia ter uma torre como a do castelo de Trancoso (Figura 4), com ou sem muralha à volta, devido ao facto de castellum implicar uma estrutura mais elaborada do que outras fortificações na nomenclatura alto-medieval, embora esta não fosse uma torre de menagem. Infelizmente, não temos temos um reaproveitamento desta suposta torre como em Trancoso ou sequer provas arqueológicas desta, o que, sem querermos entrar com argumentos de silêncio, inspira reservas. No fim de contas, não sabemos praticamente nada sobre as estruturas do interior do castelo nesta fase. Para além disto, a fortificação alto-medieval não teria necessariamente de usar a pedra, fazendo provavelmente também uso da madeira e de terra. De qualquer modo, não há vestígios reconhecíveis dessa fase e as notícias são muito escassas durante o século seguinte.

Figura 4. Torre de menagem do castelo de Trancoso. Esta imagem foi incluída para que os leitores possam ter uma ideia do formato de uma torre alto-medieval, apesar de obras posteriores de adaptação a torre de menagem. Termos uma ideia de como seria esta torre ganha ainda mais importância quando temos em mente que este castelo foi doado em 960 pela condessa Chamôa Rodrigues, sobrinha de Mumadona Dias, ao Mosteiro de Guimarães.

Em finais de 1095 ou inícios de 1096, Afonso VI outorgou a D. Henrique e a D. Teresa o Condado Portucalense como senhorio hereditário. Não muito depois dessa doação, nesta viragem do século XI para o XII, e talvez relacionado com o foral outorgado em 1096 à vila, assiste-se a uma reconstrução do castelo já num estilo proto-românico (Fase II), com pedras sem siglas e num aparelho pseudo-isódomo, i.e., com pedras em fileiras claramente organizadas, mas com ligeiras variações de altura entre elas. Ainda se podem ver algumas secções deste nas áreas assinaladas no mapa abaixo, das quais destaco a sapata em frente da Porta da Traição do castelo (Figura 5).

Figura 5. A vermelho está sinalizada a sapata proto-românica do castelo.
Figura 6. Mais restos proto-românicos do castelo. Fotografia retirada da tese de Rafael Azevedo Silva.
Figura 7. Reconstituição da fase proto-românica do castelo. Fotografia retirada da tese de Rafael Azevedo Silva.
Figura 8. Planta do castelo com indicações dos restos proto-românicos assinalados por letras. Esta fotografia foi retirada do artigo do Professor Mário Barroca, a quem muito agradecemos por no-lo ter cedido, citado na bibliografia (na segunda parte).

Esta construção foi reforçada por uma reforma românica (Fase III) ao longo do século XII, com pedras menores, sem siglas e um pouco mais regulares ainda que também num aparelho pseudo-isódomo. Finalmente, graças a estas obras adquiriu grosso modo a planta actual. Dessa fase, ainda são visíveis a porta entaipada no Torreão Sul (Figura 10) – originalmente a Porta da Vila – e o adarve primitivo do castelo num sector perto da Porta da Traição (Figura 11), mais baixo do que o actual e tapado devido ao crescimento das muralhas na reforma gótica do castelo. Ao contrário da sua conformação actual, ambas as fases provavelmente ainda não possuíam uma torre de menagem – não obstante algumas incertezas – ou os icónicos torreões, sendo ainda pouco mais do que um muro com feições arredondadas nas suas extremidades, apesar de este ser bastante mais sólido do que o anterior. Neste aspecto, a Fase II seria muito semelhante a outros castelos de iniciativa régia da época de Afonso Henriques como Germanelo ou provavelmente Castro Laboreiro, i.e., ainda que muito defensável, relativamente modesto face ao monumento visível hoje em dia. Por fim, considero importante salientar que o castelo, apesar de não ser um local de residência palaciana, conteria casas, destinadas à guarnição e talvez alguns outros residentes, referidas nas Inquirições de 1258, das quais algumas foram provavelmente encontradas em escavações de inícios da década de 1930 nos alicerces da torre de menagem.

Figura 9. Planta do castelo com a diferença entre a fase românica e gótica. A primeira recorria geralmente a muros arredondados nas extremidades como solução para compensar a falta de torres. Fotografia retirada da tese de Rafael Azevedo Silva.

Não obstante a menor imponência do conjunto arquitectónico, o Castelo de Guimarães viria a assumir um papel muito importante na formação de Portugal, entre finais do século XI e inícios do XIV. Esclareçamos a este propósito o seguinte: tal importância não advinha de ser o local de nascimento de Afonso Henriques (1106), que muito provavelmente não ocorreu em Guimarães ou até em terras portucalenses, nem por ser aqui o paço dos condes portucalenses em Guimarães (próximo da actual Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, entre a cerca desta instituição e a Rua dos Francos, algures próximo da actual Praça de Santiago). Pelo contrário, a importância desta fortificação devia-se ao facto de consituir um centro militar e simbólico do poder condal/régio no Entre-Douro-e-Minho, para além de defender um dos burgos economicamente mais activos da época, que ainda por cima se localizava num ponto central das vias medievas da região. Daí a sua participação em vários eventos do período, dos quais destaco os seguintes:

– em 1127, depois de um ataque falhado por parte de D. Teresa na Galiza (acreditando na Historia Compostelana), as forças de Afonso VII de Leão e Castela cercaram o castelo, defendido por Afonso Henriques, enquanto a sua mãe e o marido, Fernão Peres de Trava, fugiam para Coimbra. Apesar da sua resistência tenaz e talvez devido possíveis dificuldades com faltas de mantimentos, talvez mencionadas na confirmação do foral da vila de 1128, o infante teve finalmente de se render ao primo e aceitar um acordo ambíguo pelo qual aceitaria ser vassalo do primo sem ter autoridade para fazê-lo. Seguidamente, acompanhou-o a Santiago de Compostela, onde a sua presença está atestada por três documentos da chancelaria da catedral compostelana de 13 de Novembro de 1127. A história da jornada de Egas Moniz a Toledo, onde supostamente se apresentou com a corda ao pescoço perante Afonso VII, não passa de mais um mito da tradição construída pelo seu descendente João Soares Coelho na segunda metade do século XIII e ampliada a partir daí pela tradição cronística portuguesa;

– no ano seguinte, a 24 de Junho, dia de S. João Baptista, o Campo de S. Mamede, praticamente ao lado do castelo, assistiu ao fatídico encontro entre as forças de Afonso Henriques, principalmente da nobreza senhorial nortenha, e as da rainha D. Teresa e dos Trava, com efectivos principalmente galegos ou dos cavaleiros-vilãos de Viseu e Coimbra. Como resultado desta confrontação, os infanções portucalenses conseguiram eliminar a influência dos Trava sobre o Condado Portucalense, rejeitando assim as políticas de D. Teresa, possivelmente no sentido de tentar recriar um reino galego. Em substituição da condessa-rainha, estabeleceram um jovem Afonso Henriques no poder numa situação um pouco desconfortável de dependência para com eles nos anos a seguir. A este respeito, é ilustrativo o simbolismo de tradições tardias sobre como Soeiro Mendes da Maia ou Egas Moniz teriam persuadido um jovem príncipe em fuga a voltar ao campo de batalha e vencer a refrega, o que era mais um dispositivo literário com o objectivo de lembrar a monarcas em finais da Idade Média, nomeadamente a D. Dinis, que deviam a coroa à nobreza senhorial cujo poder cerceavam com as suas políticas de centralização régia;

– em 1212, uma intervenção fulminante de Afonso IX de Leão a favor da rainha (e ex-mulher do leonês) Teresa, aquando da guerra civil que opôs Afonso II de Portugal aos seus irmãos a seguir à morte do pai, Sancho I, conquistou não só um elevadíssimo número de castelos fronteiriços como chegou a ocupar quase todo o reino (incluindo Coimbra), em boa medida devido às traições de muitos alcaides trazidos para o lado rebelde pelo conde Gonçalo Mendes de Sousa, o antigo mordomo-mor de Sancho I. Afonso II teve de se refugiar neste castelo como último reduto aquando da guerra civil que o opôs aos seus irmãos, entre Abril e Novembro desse ano. Finalmente, o Papa Inocêncio III e Afonso VIII de Castela, após o fim da distração da campanha das Navas de Tolosa, conseguiram mediar a disputa entre os dois lados de um modo minimamente satisfatório para o monarca português, com um encontro entre os dois contendores mediado pelo rei castelhano em Coimbra (Novembro). Como tal, este castelo acabou por ser vital no programa afonsino de defender a indivisibilidade do reino português face aos senhorios das suas irmãs e evitou uma derrota total potencialmente muito perigosa para a sobrevivência do reino a longo prazo.

Figura 10. Torreão Sul. A reforma gótica levou ao fecho de uma porta do muro românico.
Figura 11. O adarve românico do castelo ainda é visível num dos lances de muralha perto da Porta da Traição. Quando se procedeu à reforma gótica do castelo, tapou-se aqui o adarve e o muro foi aumentado. Fotografia retirada da tese de Rafael Azevedo Silva.

Na segunda metade do século XIII, o castelo recebeu novas obras como resultado da introdução da arquitectura militar gótica por ordens de Afonso III e Dinis, mas essa história e muitas outras sobre o castelo em finais da Idade Média ficarão para a segunda parte desta publicação.

~ José

OS PAINÉIS DE SÃO VICENTE (SIM, ESSES) – PARTE III (27/01/2020)

Depois de termos apresentado a informação concreta que nos permite datar o políptico, é chegada a altura de avançarmos com algumas hipóteses – algumas quase certas, algumas pouco prováveis – de identificação de personagens em três dos Painéis.

D. DUARTE – O HOMEM DO CAPEIRÃO (1)

Trucidemos já a maior de todas as controvérsias: a identidade do homem do capeirão. Quase todas as hipóteses de identificação deste cavalheiro postuladas até hoje assentam na comparação entre o retrato do Painel dito do Infante com a iluminura que supostamente retrata o suposto dito Infante no manuscrito da Crónica da Guiné, de Gomes de Zurara. Esta semelhança é incontornável. O problema é que se parte da certeza de facto de que a imagem no manuscrito é a do Infante D. Henrique, popularizada pelo Estado Novo e conhecida de todos os portugueses e portuguesas.

Contextualmente, parece fácil afirmar o retrato da Crónica da Guiné como o do Infante. Não só o texto é parcialmente uma homenagem aos seus feitos, como o retrato surge por cima da sua divisa pessoal. Há no entanto várias incongruências pictóricas, estilísticas e materiais no manuscrito — elencadas de forma exímia por Dagoberto Markl (pp. 67-98) — que se podem resumir da seguinte forma: as páginas onde se encontra o retrato não pertencem ao manuscrito. Terão pertencido a outro volume, e sido acrescentadas (e retocadas) posteriormente ao manuscrito que se guarda na Biblioteca Nacional de França.

Quem será então o retratado? Considerando que a fase dos Descobrimentos relatada na Crónica ter ocorrido durante o reinado de D. Duarte, não seria de todo estranho ter o retrato do monarca no manuscrito. Retrato esse, aliás, que bate não só com a descrição física que é feita de D. Duarte — “Homem de boa estatura do corpo e de grandes e fortes membros; tinha o acatamento da sua presença mui gracioso, os cabelos corredios, o rosto redondo e algum tanto enverrugado, os olhos moles, e pouca barba”, segundo Ruy de Pina — como, também, a uma pista preciosa que Oliveira Marques nos dá: referindo-se ao facto de a face escanhoada (“glabra”) ser a norma no Portugal de Quatrocentos, aponta D. Duarte como uma das excepções conhecidas. “D. Duarte teria usado bigode, moda que vigorou por alguns anos (…)” (p. 87). Como fonte, é-nos apontada a transcrição de Artur da Mota Alves, em Os Painéis de S. Vicente de Lisboa num Códice da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: “El rrej dom duarte esta na sacristia de S. Domingos em uma taúoa pequena de altura de hu couodo, E esta o porpo (sic) todo posto que a taboa he pequena açima dos almarios onde se Reuestem os frades per dizer missa não tinha mais barba que bigodes” (apud Oliveira Marques, p. 268; Markl, p. 96). Ou seja, mesmo outros retratos do monarca apresentavam-no apenas e somente de bigode. Não invalidando o facto de dois irmãos poderem usar o mesmo estilo facial, há apenas uma figura abigodada deste modo nos Painéis: o homem do capeirão.

Acrescente-se a isto o seguinte: o estilo enorme de capeirão usado pela figura, já para não falar das suas vestes, passou totalmente de moda em Portugal por volta de 1430-1440, mais tardar. O Infante morreu em 1460. D. Duarte morre em 1438. Qual seria a probabilidade de uma figura da realeza vir a ser retratada, ao contrário de todas as demais do políptico, com vestes e adereços totalmente fora de moda? Pelo contrário, a incluir-se a figura de Duarte na cena, não tentaria o artista fazer uso — como faz para outras personagens retratadas postumamente — de roupas, acessórios, cortes de cabelo e quejandos, adequados à idade e época da sua morte?

D. AFONSO V & D. JOÃO II – O REI E O VERDADEIRO INFANTE (2,3)

Se o homem do capeirão for efectivamente D. Duarte, podemos agora tentar deslindar alguma da simetria patente no Painel do Infante. Temos, em torno da figura central, dois pares de figuras opostas (homens opostos a mulheres) e uma criança. Já desde o século XVI, a acreditar no famoso manuscrito do Rio de Janeiro, que o políptico é considerado o retrato de uma família real, ou pelo menos de um conjunto de monarcas portugueses (Markl, p. 22 e p. 42; Oliveira Marques, p. 268). Se à frente de D. Duarte considerarmos estar D. Afonso V genuflectindo — rei à época de feitura do quadro — temos portanto dois monarcas a ocupar a lateral direita deste painel. O aspecto físico parece perfeitamente condizente para 1470, altura em que D. Afonso V teria 38 anos. Também o trajo e os acessórios são dignos de realeza — veja-se o pormenor dos cintos a fio de ouro, do luxo dos brocados.

Ora, se assumirmos que esta hipótese de atribuição está correcta, sem grandes esticões de lógica nem assomos de simbolismo forçado, é-nos fácil responder à pergunta: quem será a criança retratada? Um criança já não muito pequena, mas certamente ainda não um adolescente à beira da maturidade – um “infante”, portanto. Digamos, por conseguinte, 10 a 15 anos de idade. Que criança com essa idade seria digna de retratar assim tão próxima da família real? D. João II, filho de D. Afonso V e D. Isabel, herdeiro da Coroa, nasce em 1455. Teria 10 anos em 1465, 14 em 1469, quando sabemos que os trabalhos no retábulo prosseguiam a bom ritmo. O Painel dito do Infante torna-se, portanto, um retrato oficial de três gerações de monarcas portugueses, reunindo nessa memória membros da família já falecidos.

Temos maneira de comprovar esta teoria? Felizmente, sim. Retornamos às Tapeçarias de Pastrana: comparem-se os retratos de D. Afonso V e de D. João II nos Painéis e depois nas Tapeçarias. A semelhança é em tudo marcada. Demais a mais, as Tapeçarias foram executadas pós-1471, data em D. João II tinha 16 anos. Os Painéis retratam-no forçosamente mais jovem.

D. LEONOR DE ARAGÃO, D. ISABEL DE COIMBRA – IN MEMORIAM (4,5)

Se é um retrato de família, então é legítimo avançar com a hipótese de que as mulheres diametralmente opostas aos monarcas são as suas respectivas rainhas: D. Leonor de Aragão para D. Duarte, D. Isabel de Coimbra para D. Afonso V, ambas falecidas antes da pintura do quadro (D. Leonor em 1445, D. Isabel em 1455), mas ambas com o aspecto que teriam sensivelmente à altura da morte (tal como D. Duarte, e o verdadeiro Infante D. Henrique, como veremos).D. HENRIQUE – O CAVALEIRO AJOELHADO (6)Pois bem. Se o homem do capeirão for D. Duarte, estará D. Henrique incluído no políptico? Sim: no Painel dos Cavaleiros. Como o sabemos? Entre outras coisas, porque existe um retrato coevo do Infante: o jacente (estátua) do seu túmulo no Mosteiro da Batalha, cuja fotografia se pode ver anexada a este artigo. Mais uma vez, a semelhança é inegável. Para além disso, voltamos a ter uma descrição física fulcral: segundo Zurara, D. Henrique tinha “a estatura do corpo em boa grandeza e foe home de carnadura grossa e de largos e fortes membros a cabelladura auya alguu tanto aleuantada a coor de natureza branca mais polla continuaço do trabalho per tepo tornou dotra forma (…)” . O homem do capeirão não tem cabelos brancos. O cavaleiro ajoelhado tem.

D. PEDRO, D. JOÃO, D. FERNANDO – RETRATOS POSSÍVEIS? (7,8,9)

É possível que o Painel dos Cavaleiros seja em primeiro lugar um retrato dos quatro membros masculinos da Ínclita Geração. Para D. Henrique temos boas bases de identificação; para D. Pedro, de sobreveste verde, parece haver um retrato (copiado destes Painéis por mão muito menos hábil) feito algures entre o século XV e o século XVIII que o nomeia como tal; para D. Fernando, não seria impossível comparar a figura de longas barbas com a imagem (também ela barbuda) do Tríptico do Infante Santo. Fica de fora D. João, que só caberia nesta hipótese por força de lógica à conta dos irmãos. Estas não são identificações minimamente consensuais até hoje, conquanto não sejam de todo improváveis.

D. JORGE DA COSTA – EMINÊNCIA EM DOURADO (10)

Pouco consensual, embora não se entenda bem porquê, é também o arcebispo que dá o nome a um dos painéis. Que arcebispo, é a pergunta? Quem é o indivíduo de mitra e báculo ornados que encara os fiéis de frente? Bom, pelo que já mostrámos, sabemos que em 1469-1471 estavam os Painéis a ser pintados. Quem era o Arcebispo de Lisboa à época? D. Jorge da Costa, o afamado “Cardeal de Alpedrinha”; membro querido da corte de D. Afonso V e uma sumidade na sua época, que sabemos andar a angariar apoios para a reconstrução da capela de S. Vicente em 1467 (veja-se um bom resumo da carreira deste prelado em Carvalho, pp. 91-92). D. Jorge da Costa faleceria em Roma aos 102 anos. O seu jacente, na Basílica de Santa Maria del Popolo, apresenta também ele semelhanças com o retrato dos Painéis.

INFANTE D. AFONSO – UM RETOQUE TARDIO (A)

Quase a terminar, uma identificação tardia: o Infante D. Afonso, filho de D. João II falecido em 1491, aos 15 anos. Sabemos que a face do santo foi retocada a posteriori: os exames radiográficos que foram feitos aos Painéis comprovam-no. Temos também documentação coeva que indicia essas mudanças (Markl, pp. 46-48). Não parece de todo improvável, portanto, esta atribuição.

FERNÃO LOPES? (B)

Por fim, olhemos para o cavalheiro de ar grave, barreta castanha e livro nos braços, à direita no Painel do Arcebispo. Este personagem é frequentemente tido como retrato póstumo do cronista Fernão Lopes, falecido em 1459. O livro e as vestes estariam em harmonia com esta identificação, mas não temos mais dados sobre o assunto. Portanto, por mais que nos agradasse, não temos como consubstanciar esta teoria.

Por outro lado, e segundo a mesma lógica, seria possível estarmos perante um retrato de Gomes Eanes de Zurara, ainda vivo à altura da pintura dos painéis. Tanto no caso como noutro, fica apenas a leve sugestão, que as provas não permitem que disso passe.

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Autor: Anton Stark

OS PAINÉIS DE SÃO VICENTE (SIM, ESSES) – PARTE II (24/01/2020)

Na primeira parte desta nossa série de pequenos artigos, avançamos com alguns, poucos, dados para a datação do políptico. Nesta segunda parte prosseguimos com as nossas observações, acrescentando mais dados à questão, incluindo alguns detalhes que poucas vezes têm sido mencionados e outros que teimam em ser ignorados.

DE ARMAS E BAGAGENS

Um (grande) pormenor que quase todos os estudiosos do assunto parecem ter deixado de lado é o armamento encontrado no políptico, nomeadamente nos painéis do Infante, do Arcebispo, e dos Cavaleiros. Não é de admirar que o tenham feito: como já tive a oportunidade de ressalvar neste espaço, o armamento usado em Portugal no século XV é uma área ainda quase inteiramente por explorar. Neste caso em concreto, as alterações morfológicas no armamento retratado são absolutamente fulcrais para se poderem datar os Painéis.

Comecemos, por exemplo, pelas couraças no Painel do Arcebispo, nos guerreiros ao fundo do painel. A couraça do guerreiro mais à esquerda é extremamente peculiar, uma das raríssimas representações europeias de couraças de abertura frontal. Contam-se quase com uma mão outros exemplos em arte estrangeira, exemplos esses que tendem a pertencer ao final do século XV. Quanto ao espécime mais à direita, o que ali vemos é um modelo feito de confluências: as linhas redondas e suaves da armadura italiana fundem-se com elementos decorativos tipicamente ibéricos – as afamadas panceiras (placas de protecção do ventre) “rabo-de-peixe”, de borda recortada. Vemos este modelo de couraça tanto em arte como espécimes arqueológicos: as couraças presentes nas Tapeçarias de Pastrana, por exemplo, e a couraça de Duarte de Almeida, o Decepado, porta-estandarte de D. Afonso V.

A comparação com estes modelos fornece-nos datas interessantes para o debate sobre os Painéis: as Tapeçarias foram tecidas em torno de 1475, para celebrar a campanha marroquina de 1471; já a armadura de Duarte de Almeida provém da batalha do Toro, travada a 1 de Março de 1476. Ora, da mesma maneira que os guerreiros de Pastrana não teriam adquirido as suas armaduras na véspera da invasão, também Duarte de Almeida não teria encomendado a sua na noite anterior à batalha. Por estes exemplos, seria seguro balizar este estilo de armadura como pertencente a 1470-1475.

Uma boa comparação estilística não se deve ficar pelo que cá (ou para cá) se fez. Vejamos os exemplos contemporâneos que nos chegam do outro lado da raia e que também incorporam estas características. O exemplo que se pode apontar como mais antigo destas couraças “rabo-de-peixe” é o do jacente de Garci Laso de la Vega, cavaleiro castelhano falecido em 1456: É bem visível a aresta recortada da panceira, que apesar de tudo ainda apresenta o formato em cunha mais ou menos regular e tradicional do estilo italiano de exportação. Tal já não acontece nestes dois exemplos, mais tardios. Não se conhece este estilo para dá das fronteiras de Castela.

E quanto ao restante equipamento defensivo representado? Torna-se difícil precisar uma época concreta para a morfologia de solhas ou gibanetes (uma espécie de casacos forrados com placas de ferro ou aço) usado pelas duas figuras laterais em primeiro plano no Painel do Arcebispo – principalmente pela peculiaridade dos enormes cravos que apresentam, que não conhece paralelo nas poucas brigandinas que chegaram aos nossos dias. O mesmo se pode dizer da malha metálica, que tem entre nós uma tradição ininterrupta até meados do século XVI. Há porém um elemento final e decisivo de que podemos fazer uso: A canelagem profusa nos coxotes, joelheira e cubiteira (cotoveleira) do guerreiro à esquerda, em primeiro plano. É certo que já em meados do século encontramos exemplos de canelagem em armaduras europeias — bom exemplo desta técnica é o do jacente de Richard Beauchamp, em Warwick (Inglaterra) —; mas a profundidade das caneluras, a sua disposição e o próprio formato das peças em que se inserem não encontram paralelo emquaisquer exemplos históricos anteriores a 1465-1470. Mesmo para 1470 são algo precoces, diga-se, quando comparadas com a decoração das armaduras ditas “góticas” alemãs – o que não é assim tão bizarro se considerarmos que esta é a aristocracia portuguesa, com acesso quase imediato ao que de melhor se fazia na Europa. Face à luz do conhecimento actual sobre armamento europeu, estes três elementos fixam um terminus post quem muito claro: 1465-1470.

O mesmo exercício comparativo poderá ser feito com as armas exibidas pelas figuras dos Painéis. Das espadas, por exemplo, todos os espécimes de que há registo — tanto castelhanos como portugueses — datam de 1460/1470 para diante. As bisarmas, empunhadas pelos guerreiros couraçados, vêem-se nas Tapeçarias de Pastrana, e em arte borgonhesa de 1465-1490 (veja-se a título ilustrativo as iluminuras do Manuscrito 9 da Catedral de Ghent, por exemplo). As adagas ditas “de orelhas”, como a que se pode ver à cintura de um dos cavaleiros no Painel dos Cavaleiros, são um legado das culturas muçulmanas da Península disseminado entre os reinos cristãos a partir de meados do século, mas que só se veriam amplamente disseminadas em Portugal, Castela e Aragão a partir de 1470.

DE CABELINHO NA VENTA

Toda a gente se lembra das permanentes dos anos 80, ou do descalabro que foram os cortes “à pajem” dos anos 60 para rapazes – estilos marcantes de uma dada época. Pois também as questões capilares nos Painéis nos oferecem pistas à datação. Coexistem, principalmente no Painéis do Arcebispo e do Infante, dois estilos de corte imediatamente identificáveis: o corte dito “à chamorro” (hoje chamar-lhe-íamos apenas um simples corte de tigela), que se vê nas cabeças de quase todas as figuras de mais idade (o exemplo mais vincado é o corte do “homem do capeirão”), e um corte mais moderno, mais longo à frente mas particularmente atrás, onde começa a descer em direcção aos ombros. Usam este corte os figurantes mais jovens da composição, em particularmente a figura ajoelhada e a criança no Painel do Infante, e os jovens cavaleiros do Painel do Arcebispo. E em que nos ajuda isto? Bem, por influência francesa, o “chamorro” foi o corte da moda em quase toda a Europa desde finais do século XIV a meados do século XV, quando ainda vigorava em força. A partir de cerca de 1465, como refere Oliveira Marques (dando aliás os Painéis como exemplo), o cabelo passa a usar-se longo, “caindo à frente sobre os olhos e atrás até à nuca” (p. 87). Oliveira Marques acrescenta ainda, na frase imediatamente a seguir: “Por volta de 1480 atingiram os ombros. Assim se usaram até princípios do século XVI”, no corte renascentista que todos conhecemos da pintura italiana. Para a grande maioria dos cortes de cabelo nos Painéis está, assim, estabelecida uma baliza temporal: 1460 – 1480. Trocando por miúdos: os homens mais velhos apresentam um corte que começa a sair de moda no final dos anos 50, e os jovens mostram uniformemente um corte que só começa a disseminar-se em finais da década de 1460 e inícios da década de 1470.

O QUE NOS DIZEM OS DOCUMENTOS

Guardámos o melhor para o fim: a documentação que ajuda a comprovar de forma directa a datação dos Painéis. Porque sim, temos documentação, que só se pode descartar com desonestidade intelectual, falta de pesquisa, e muita teimosia.

De entre os vários documentos históricos sobre os Painéis (a contagem vai neste momento em mais de três dezenas), importam-nos dois registos fundamentais. O primeiro deles é uma carta de quitação de D. Afonso V passada a Afonso Eanes, chantre da Sé de Lisboa, a 19 de Junho de 1469, informando-o da entrega de 5650 reais ao “cabido da dita Sé de esmola para o retábulo que se ora faz na dita Sé do mártel S. Vicente” (apud José dos Santos Carvalho, p. 92; originalmente publicado por Jaime Cortesão n’Os Descobrimentos Portugueses, vol. 3, pp. 483-516; referenciado em Markl, p. 46). Portanto, em 1469, o retábulo vicentino estaria a ser feito. O segundo documento, de 12 de Abril de 1471, concerne Nuno Gonçalves directamente (uma outra polémica para uma outra altura), e nele se nomeia o afamado pintor de corte de Afonso V para assumir chefia das obras da capela vicentina, ainda a decorrer.

Estes dados deitam por terra quaisquer teorias que colocam a feitura dos Painéis uma ou duas décadas para lá de 1470. Para se coadunarem com as teorias que advogam a data de 1445 para (pelo menos) o início da obra, os Painéis teriam demorado cerca 24 anos a serem terminados — sensivelmente o tempo que se estima ter demorado a construir a Grande Pirâmide de Gizé, para comparação).

Retomemos novamente a nossa súmula:

SUMÁRIO GERAL DA PRIMEIRA E DA SEGUNDA PARTE

Terminus post quem (análise dendocronológica): 1445-1448
Probabilidade da datação do início da pintura: 1455-1460 e 1458-1463 (10-15 anos, em média)
Datação comparativa dos gibões: 1460-1480 (com cerca de 5 anos de margem de erro)
Datação dos armamentos: finais da década de 1460 – 1490
Terminus post quem dos armamentos: finais da década de 1460-1490
Datação das modas capilares: 1460-1480
Datação documental: 1469-1471

Embora um retábulo desta dimensão demorasse necessariamente algum tempo a ser elaborado (o Retábulo de Ghent terá demorado apenas dez anos a ser concluído, entre 1422 e 1432), nada* nas materialidades das imagens se reporta à data de 1445 ou data sequer próxima. Os elementos que ilustrámos, bem como a documentação, servem para afinar a datação dos Painéis em torno de 1470. Esta datação é em tudo o mais auxiliada pelas propostas de identificação de determinadas personagens, que avançaremos na terceira e última parte desta nossa série.

*Com um par de propositadas excepções.

BIBLIOGRAFIA

Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela.
Barroca, M., e Seruca, H. (2019). Um modelo de espada criado pelos portugueses na primeira metade do século XV?. Em Portvgalia, 40. Porto: DCTP-FLUP, pp. 119-133.
Blair, C. (1972). European Armour: circa 1066 to 1700. Londron: B. T. Batsford Ltd.
Carvalho, J. (1965). Iconografia e Simbólica do Políptico de São Vicente de Fora. Lisboa: [Edição de Autor].
Cortesão, J. (1990). Os Descobrimentos Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda [reedição do texto original].
Edge, D. and Paddock, J. (1988). Arms and Armor of the Medieval Knight. New York: Crescent Books.
Lorente, J. (1964). The XVth Century Ear Dagger. Its Hispano-Moresque Origin. Em Gladius, 3. Madrid: Centro de Ciencias Humanas y Sociales, pp. 67-87
Markl, D. (1988). O Retábulo de S. Vicente da Sé de lisboa e os Documentos. Lisboa: Editorial Caminho SA
Oakeshott, E. (2012). European Weapons and Armour: From the Renaissance to the Industrial Revolution. Woodbridge, UK: Boydell Press
Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros
Serrão, V. (2003). Pintura e Vitral. Em Barroca, Mário; História da Arte em Portugal, vol. II, O Gótico. Lisboa: Editorial Presença, pp. 279-285.

Autor: Anton Stark

OS PAINÉIS DE SÃO VICENTE (SIM, ESSES) – PARTE I (22/01/2020)

Assinala-se hoje o dia de São Vicente, santo de peso na nossa História nacional (e de Lisboa em particular). Poderíamos discorrer sobre a vida da figura e sobre o seu legado, mas optámos por assinalar a ocasião abordando uma das peças mais controversas que lhe estão associadas.

Os Painéis de São Vicente de Fora, um conjunto de seis pinturas a óleo e têmpera sobre madeira, são a obra de pintura portuguesa em torno da qual mais polémica se gerou ao longo dos anos – algo verdadeiramente notável, dado tratarem-se de peças do século XV. As polémicas centram-se fundamentalmente em dois aspectos: de quando datam os Painéis; e quem são, afinal de contas, as personagens retratadas? Nesta série de pequenos artigos, em três partes, vamos tentar dar algumas achegas sobre estas questões, com base na boa ciência que se tem arquitectado em torno destas pinturas (com particulares destaque para Dagoberto Markl e Vítor Serrão).

Desde a sua (re)descoberta em finais do século XIX que o políptico tem sido estudado por académicos e entusiastas de arte (e não só) de espécie vária, fomentando um afã de trabalhos académicos (mais de três dezenas, à data), muitos dos quais abordam as duas anteriores questões. O último dos trabalhos que mais discussão gerou sobre o assunto foi o livro Os Painéis de São Vicente (2000), de Jorge Filipe de Almeida, expandido na sua página Os Painéis à Luz da Razão. Como a este e à grande maioria dos seus antecessores, a razão parece ter-lhes escapado: em vez de olharem para o que estava efectivamente pintado na obra, discorreram num sem-fim de considerações obscurantistas e simbológicas sobre varas, infantes santos e supostas assinaturas escondidas em arabescos. Não quer isto dizer que não seja possível ler os Painéis de forma simbólica e simbológica. Pelo contrário: essa leitura deve ser efectuada, como peças medievais que estes quadros são e pelos elementos peculiares que contêm. O que não podemos fazer é ignorar ou distorcer factos para apoiar essas leituras.

PORQUÊ A IMPORTÂNCIA DA DATAÇÃO?

A resposta é simples: para podermos utilizar os Painéis como fonte de informação, é necessário entendermos que tipo de informação, ou sobre que época, nos podem os Painéis fornecer. Numa altura de rápidas evoluções não só no campo da arte mas também da moda, usos sumptuários e comportamentos sociais, entre outros, é essencial fixar os Painéis no tempo para que deles possamos retirar as devidas ilações.

OS PAINÉIS NA PINTURA PORTUGUESA E EUROPEIA

Comecemos pela menos técnica das observações. Alvor-Silves, um dos muitos entusiastas dos Painéis, sugere que colocar a data dos Painéis em 1445 — como advogam várias teorias, incluindo a de Jorge Filipe de Almeida — seria, no contexto do novo estilo de arte gótica europeia, prematuro, mesmo considerando artistas e obras anteriores de técnica comparável, (como Jan van Eyck). Também a mim me parece descabido afirmar a presença de tão notáveis obras plenas do Gótico internacional tão rapidamente em Portugal em 1445, mesmo considerando as duas vindas de van Eyck a Portugal (uma em 1428-1429, a outra dez anos mais tarde). Considerando os contactos entre Portugal e a Borgonha (principalmente entre 1430 e 1470) e a existência de mestres como Jean Fouquet, e face à comparação com outros países e artistas (Alvor-Silves avança com Mantegna; eu poderia avançar com um Pedro Berruguete ou um Bartolomé Bermejo, mais próximos de nós – não descuremos as influências aragonesas no estilo de Nuno Gonçalves, conforme avança Vítor Serrão), parece lícito afirmar que este estilo estaria por cá implantado, sem necessidade de arrojos de precocidade, por volta de 1460.


Mas estas são apenas considerações teóricas, sem grande sustentabilidade, quando o que queremos são realidades incontornáveis. Cinjamo-nos então aos factos mais basilares e mensuráveis:

COM QUANTAS TÁBUAS SE FAZEM POLÍPTICOS

Do Norte da Europa não veio apenas o estilo pictórico, temperado pelo iberismo de Nuno Gonçalves; vieram também as próprias tábuas sobre as quais se pintaram os Painéis. Em 2001, a pedido do Instituto Português de Conservação e Restauro, foi efectuado um estudo à madeira de carvalho do Báltico dos painéis pelo Professor Peter Klein da Universidade de Hamburgo. Este estudo trouxe à luz o melhor facto científico possível sobre o políptico: datou as madeiras, com algum grau de certeza, em torno de 1445-1448. Temos portanto um sólido facto, um terminus post quem: os anos de 1445-1448. Problema resolvido, portanto? Não.

É que esta é apenas a data em que a madeira foi cortada. Nada mais. Poderíamos discorrer aqui sobre o que esta análise representa, sobre a multiplicidade de erros que têm sido cometidos em usar esta data como bandeira da teoria de datação de 1445, mas deixemos o próprio Peter Klein explicar a situação: “The next problem is to determine how much time elapsed between the felling of a tree and the painter’s use of a panel from it (…) Since only a small number of investigations have been carried out with dated paintings from the fifteenth century, we cannot yet make such an accurate estimate for these earlier panels, although the studies that have been conducted to date (for examples, see tables 1 & 2) indicate an average seasoning time of ten to fifteen years”. Ou seja, trocando por miúdos: no século XV, entre o cortar da madeira, secá-la e prepará-la para pintura, passava-se em média (!) entre uma década a quinze anos. O que colocaria, segundo esta média, a execução dos Painéis no mínimo entre 1455 e 1460, senão mais tarde.

GIBÕES E COLARINHOS

Podíamos dar esta primeira parte por encerrada neste ponto, mas lancemos já um olhar para os quadros em si mesmos. Comecemos por prestar atenção a uma das peças de roupa fundamentais da época: o gibão masculino. De forma simples, o gibão era uma espécie de casaco justo que, à época, seria o equivalente a uma camisa moderna, para ser usada debaixo de outras camadas de roupa. Diz-nos António de Oliveira Marques, acerca dos gibões em Portugal, que a vestimenta “podia, ou não, comportar golas. Na segunda metade do século XV, cada vez mais esta foi fazendo a sua aparição, chegando a usar-se bastante alta e fechada” (p. 61). Seguiam as modas portuguesas a influência borgonhesa, criando frequentemente, nas palavras de Susan Reed, “collars that were relatively high, curved away from the base of the throat, and often standing away from the neck of the wearer” — assim os podemos observer, por exemplo, em várias obras da pintura flamenga desde 1450 a 1490. Como podemos constatar pelos pormenores na pintura, esta é sem dúvida a descrição mais apta para os colarinhos dos gibões presentes nos Painéis. Ainda sobre a influência borgonhesa, diz-nos Oliveira Marques que “a moda borgonhesa criou, a partir de 1465-1470, gibões abertos em ponta até à cintura e atados por meio de cordões. Evoluem já para este tipo alguns dos porpontos que se podem observar nos Painéis” (p. 61). Mas Oliveira Marques dá-nos ainda mais uma muito fundamental pista. Diz ele que “Por volta de 1460 as mangas dos gibões começam a usar-se com fendas, deixando ver a camisa. Assim se podem observar nas figuras dos Painéis”. Oliveira Marques parece considerar os Painéis como uma demonstração inequívoca da moda de 1460-1470.

SUMÁRIO GERAL DA PRIMEIRA PARTE

Terminus post quem (análise dendocronológica): 1445-1448
Probabilidade da datação da pintura: 1455-1460 e 1458-1463 (10-15 anos, em média)
Datação comparativa dos gibões: 1460-1480 (com cerca de 5 anos de margem de erro)

Na próxima parte, dia 24, analisaremos em pormenor outros dois factores essenciais à datação dos Painéis: as barbas e cabelos, e a questão dos armamentos. Na terceira e última parte, dia 27, tentaremos avançar com possíveis identificações de várias das figuras dos Painéis, com base nos limites temporais estabelecidos nas duas primeiras partes.

~ Anton

BIBLIOGRAFIA:

Baeta, C. (2012). Os Painéis em Memória do Infante D. Pedro. Portugal: Bubok Publishing SL.
Baylé, J. e Beaulieu, M. (1956). Le Costume en Bourgogne, de Philippe le Hardi à la mort de Charles le Téméraire (1364-1477). Paris : Presses universitaires de France
Filipe de Almeida, J. (2000). Os Painéis de Nuno Gonçalves. Lisboa: Verbo
Klein, P. (2003). Dendrochronological Analyses of Netherlandish Paintings. Em Recent Developments in the Technical Examination of Early Netherlandish Painting: Methodology, Limitations and Perspectives. Turnhout: Brepols Publishers, pp. 65-81
Klein, P. (2014, 4 de Junho). A note on dendrochronological analyses of panel paintings at the National Gallery of Victoria. Disponível em: https://www.ngv.vic.gov.au/…/a-note-on…/
Markl, D. (1988). O Retábulo de S. Vicente da Sé de lisboa e os Documentos. Lisboa: Editorial Caminho SA
Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros
Salvador Marques, A. (2019). Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização. Disponível em http://paineis.org/INDICE.htm
Serrão, V. (2003). Pintura e Vitral. Em Barroca, Mário; História da Arte em Portugal, vol. II, O Gótico. Lisboa: Editorial Presença, pp. 279-285.
Reed, S. (2004). 15th Century Men’s Doublets: An Overview. Disponível em http://www.nachtanz.org/SReed/doublets.html

Da Era de César à Era de Cristo: a mudança na contagem do tempo (14/08/2020)

Figura 1. Mapa da Península Ibérica de 1377, do Atlas Catalans, com as bandeiras de Portugal, Leão e Castela, Granada, Aragão e Barcelona.

Regressamos a um tema já tratado nesta página para apresentarmos novas informações sobre a mudança das Eras em Portugal e para relembrarmos como se contava o tempo na Idade Média. Dependendo do sítio, não só se começava o ano em dias diferentes como até a própria Era em que era contado variava de região para região. O caso Ibérico é paradigmático, visto que até finais do Medievo a contagem não correspondia à cronologia que hoje usamos. Assim, é interessante explicar como começámos a contar os anos desde o nascimento de Cristo e que tipos de calendários existiram no passado.

Na Península Ibérica, usava-se predominantemente a Era de César ou Era Hispânica, desde a Antiguidade Tardia. Em finais do século III, aparecem as primeiras inscrições na era consular hispânica nas Astúrias. Tem havido uma imensa discussão sobre o começo desta contagem consular, mas o consenso actual tem consagrado estas inscrições como os primeiros exemplares da Era de César. A partir daqui, começou a espalhar-se no campo epigráfico ao longo do século IV para outras províncias, chegando em 381 a Mérida, num processo que se prolongou até aos séculos VI.

Entretanto, o novo método de contagem do tempo começou também a chegar aos documentos: encontramo-lo já no Chronicon do bispo Idácio de Chaves, que ajudou a popularizar a Era, e também foi adoptada pela Igreja hispânica a partir de inícios do século VI. Mesmo assim, alguns autores da Tarraconense como João de Biclaro ainda se referiam aos cônsules e reinados dos reis godos para datarem os eventos por mais algum tempo.Não se sabe exactamente quais as razões para a contagem dos anos ser feita dessa forma. Isidoro de Sevilha, nas suas famosas Etymologiae (Etimologias), explicava que um censo fora estabelecido por César Augusto e um imposto pago nessa ocasião. Contudo, não é conhecido nenhum censo nessa altura. João Alves Dias lança a hipótese de ter sido uma criação dos Suevos com base na renovação do Segundo Triunvirato, pelo casamento da irmã de Octaviano, Octávia, com Marco António, nesse ano; se eventualmente este investigador pode estar certo quanto ao verdadeiro evento original, não cremos que essa criação pelos Suevos seja verdade por não explicar as inscrições tumulares de Mérida a partir de 381, bem antes dos Suevos chegarem, ou a era consular hispana. Nem explica o uso por Idácio de Chaves, tudo menos pró-Suevo no seu Chronicon

Por enquanto, a explicação mais plausível será a de Álvaro d’Ors: a concessão, em 38 a.C., do título de Imperator (comandante militar) pelo Senado. Numa interpretação tardo-antiga da História clássica, esse seria para alguns o começo do reinado de César, especialmente devido à conotação monárquica de tal palavra em finais da Antiguidade, como um dos títulos imperiais. Tal datação também ganhou em popularidade ao longo da Antiguidade Tardia, por ser conveniente de um ponto de vista cristão. No fim de contas, a historiografia tardo-antiga cristã, com começo em Eusébio, ligava a ascensão de Octaviano e o começo do Império Romano com o nascimento de Cristo e o início da Sexta Idade, como parte de um plano divino que preparava assim a difusão do Cristianismo dentro de um Império Romano universal.

Também podemos ver reflexos dessa ideia poderosa em Orósio, por exemplo, e até Isidoro de Sevilha, comprometido com um projecto de etnogénese goda claramente patente no seu De Laude Spaniae, não deixa de reflectir isto quando aponta o nascimento de Cristo como o único evento relevante do reinado de Augusto, mesmo no início da Sexta Idade. Ou seja, na sua origem, o calendário acabava por ser um elemento identitário hispano-romano adaptado ao Cristianismo, depois continuado mesmo quando o Império tinha caído e novas identidades surgido, devido ao peso da tradição romana.

Passamos então a explicar como se contavam as datas: na Era de César, em que o ano inicia a 1 de Janeiro, a contagem começa a partir do ano 715 da Fundação de Roma, ou seja, 38 anos antes da data do nascimento de Cristo, logo, é necessário subtrair-se esses mesmos 38 anos para converter uma data para a Era de Cristo, ou Anno Domini. Alguns exemplos:

– Carta de Foral concedida por D. Afonso Henriques “feita a carta em Coimbra no mês de Maio da Era de 1217”: [1217 – 38 = 1179 Anno Domini]

.– Confirmação feita por D.Sancho I “feita esta carta em Guimarães no mês de agosto na Era de 1242”: [1242 – 38 = 1204 Anno Domini].

Figura 2. Inscrição na muralha do Castelo de Melgaço. O texto refere que a fortaleza foi construída por mandado do rei Afonso III no ano de MCCCI (1301), mas como esta data se refere à Era de César tem de se retirar 38 anos, logo o Ano de Cristo correspondente é 1263.
Figura 3. Cruz “flordelisada” de Sancho I (Museu Nacional de Arte Antiga). Esta cruz processional ostenta a data de 1214 da Era de Cristo numa tarjeta, incisa no ouro, que percorre a parte inferior do seu reverso.

Já a Era de Cristo ou Anno Domini é uma criação do monge Dionísio, o Exíguo. Este autor, a viver em Roma no século VI, calculou de forma dúbia o nascimento de Cristo e igualou o ano da Encarnação de Cristo (1 a.C.) a 753 “ad urbe condita”. Ainda existia uma variante desta Era: o Ano da Encarnação. Enquanto a Era de Cristo começa o ano no dia 25 de Dezembro em honra do nascimento de Jesus, o Ano da Encarnação tem como início 25 de Março. E para confundir ainda mais as cabeças, havia 2 cômputos neste último método: o pisano e o florentino. Enquanto o cômputo de Pisa começa a contagem em 25 de Março de 753 “ad urbe condita”, o cômputo de Florença começa a contagem no mesmo dia, mas no ano seguinte. Na restante Europa, a Era de Cristo tornou-se corrente durante a Alta Idade Média após se espalhar desde Itália: aplicada em Inglaterra a partir do século VII, e em França desde o ano 1000. Mas isso não ocorreu na Península Ibérica, onde a Era de César continuou a vingar até ao Medievo tardio, só começando a ser abandonada lentamente. E é precisamente pelas inscrições que ainda se conservam, em Igrejas, castelos e outros edifícios, que constatamos o seu abandono gradual: na Catalunha foi abandonada por volta do ano 1180; em Navarra deixou de ser referida em 1234, em Aragão em 1350 e em Valência em 1358. Por seu turno, em Castela e Leão vigorou até às cortes de Segóvia em 1383. Refira-se, não obstante, que até ao início do século XVII o uso da Era Cristã não se generalizou por completo em todo o território da Península.

Em Portugal, a esmagadora maioria dos documentos, a começar pelos da chancelaria régia ou por inscrições como a do castelo de Melgaço (Figura 2), usava a Era de César até bem entrado o século XV. Todavia, temos notícia do uso ocasional da Era de Cristo em alguns documentos de séculos anteriores. Cite-se a título de exemplo o testamento de Afonso Henriques, que está datado da Era de 1179, ou a cruz patada de Sancho I (Figura 3), embora sejam raros nas nossas fontes, quer documentais, quer epigráficas. Um pouco mais frequente era o Ano da Encarnação, sobretudo em meios eclesiásticos eruditos, mas também era raramente usado quando comparado com a Era Hispânica.

Figura 4. Cópia de uma pintura atribuída a D.João I, do século XV, descoberta na Áustria e actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga. Foi este rei que decretou oficialmente e definitivamente a mudança da contagem do tempo para a Era de Cristo, a 14 de Agosto de 1422.

O reino português foi também o último a trocar a Era de César para a Era de Cristo, tendo isto acontecido durante o reinado de D. João I, em 1422. Até há bem pouco tempo, pensava-se que a transição fosse ordenada por D. João I em 22 de Agosto desse ano, no seguinte decreto das Ordenações Afonsinas (título LXVI, Livro IV):

“Da mudança, que se fez da Era de Cesar aa do Nacimento de Nosso Senhor Jesu Christo, El Rey Dom Joam da famosa e excellente memoria em seu tempo fez Ley em esta forma, que se segue.

Manda ElRey a todolos Taballiaães e Escripvaães do seu Regno e Senhorio, que daqui em diante em todolos contrautos e escripturas, que fezerem, ponham Anno do Nacimento de Nosso Senhor Jesu CHRISTO, assi como ante soyam a poer Era de Cesar; e esto lhes manda que façam assi, sob pena de privaçom dos Officios.

Poblicado foi assi o dito Mandado do dito Senhor na Cidade de Lixboa per mim Philippe Affonso Loguo-Tenente do Escripvam da Chancellaria nos Paaços d’ElRey perante Diego Affonso do Paão, Ouvidor na sua Corte, que sia em audiencia, aos vinte e dous dias d’Agosto Anno do Nacimento de Nosso Senhor Jesu Christo de mil e quatrocentos vinte e dous annos.

E VISTA per nós a dita Ley, mandamos que se guarde, como em ella he contheudo” [contido].

Contudo, como o Professor João Alves Dias observou recentemente, esta não poderá ser a data da adopção da lei, como se tem frequentemente escrito na historiografia (e nós também errámos). A data de 22 de Agosto, como o resto do 3º parágrafo do texto citado, meramente se refere à publicação da nova lei na cidade depois da chegada dos mensageiros do rei, pela qual a normativa entrava em vigor. Assim, não é de maneira nenhuma relativo à sua promulgação pelo rei, que andaria por esta altura entre Peral (dia 15), uma aldeia do termo de Cadaval, e Alcobaça (dia 30), bem longe da capital.

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Figura 5. No actual livro original de registos – formado pelos antigos livros da Casa dos Contos – foi possível encontrar um outro alvará proveniente da corte, datado de 15 de agosto de 1422, assinado pelo Rei, quando este se encontrava no Peral.

A reforçar esta ideia estão alguns documentos da semana anterior já datados da Era de Cristo. É o caso de um alvará assinado por D. João I no dia 15 de Agosto, precisamente na aldeia de Peral, embora só tenhamos o seu registo nas Leituras Novas da chancelaria do monarca. Veja-se também uma pública-forma assinada por Fernão Lopes datada de dia 18 de Agosto (Figura 6), em que a Era de Cristo também é usada. Ou seja, a notícia da lei teria chegado a Lisboa e a Torre do Tombo já lhe estaria a obedecer, apesar de a lei só ter sido publicada solenemente uns dias depois na cidade.

Figura 6. Pública-forma emitida pelo Arquivo do Reino da época – a Torre do Tombo («a nossa torre do castelo da cidade de Lisboa onde estão as nossas escrituras do tombo» [linha 2]) – e assinada por Fernão Lopes («escrivão dos nossos [do Rei] livros que tem carrego [= encargo] das ditas nossas escrituras» [linha 5]) uns dias antes.

«E o dito Fernão Lopes visto o dito nosso alvará e o cumprimento dele lhe mandou dar o trelado delas assinado por sua mão e selado com o selo dos nossos contos da nossa cidade de Lisboa, dada em a dita cidade de Lisboa 18 dias do mês de agosto, El Rei o mandou per o dito Fernão Lopes a que disto é dado seu especial encargo de guardar as chaves das ditas escrituras e dar o treslado delas como dito é, Gonçalo Eanes a fez per seu mandado Era da nascença de nosso Senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e vinte e dous anos.» [tudo isto está escrito da quarta linha (a contar do fim) para baixo].

Qual então, a data e local da mudança de Era? Não temos verdadeiramente o dia exacto. Mesmo assim, há uma outra lei já datada da Era de Cristo, transcrita nas Ordenações Afonsinas (título I, 57-59, Livro 4) e que nos dá uma resposta tentadora: em Óbidos, no 14 de Agosto, aniversário da batalha de Aljubarrota. Mesmo assim, temos de apontar algumas reservas quanto à hipótese de João Alves Dias pela mesma razão usada pelo historiador para Lisboa. A normativa mencionada só diz a data de entrada em vigor da lei em Óbidos e não nos dá garantias da localização da corte ou da real data de promulgação. Não impede, por exemplo, que D. João I ainda continuasse a sua estadia (documentada em Julho) nos Paços da Serra d’El-Rei, na Atouguia, e tivesse promulgado a lei com 1 ou 2 dias de diferença. Mas independentemente destas objecções, a hipótese de João Alves Dias continua a ser a melhor com os dados conhecidos, até que um novo documento seja conhecido ou alguém se depare com um documento já conhecido e entretanto ignorado. Abaixo, transcrevemos a lei emitida em Óbidos:

“Foi publicada esta Ordenaçom em Obidos per Johane Meendes Corregedor da Corte d’ElRey a quatorze dias d’Agosto anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e vinte e dous annos.

Outro sy manda ElRey a todolos Tabaliaaẽs, e Escripvaaaẽs, que daqui em diante em todalas Escripturas, que fezerem, ponham Era do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e vinte e dous annos, sob pena de privaçom dos officios.

Forom publicadas na Cidade de Lixboa por mim Filipe Affonso nos Paaços d’ElRey, perante Diego Affonso Ouvidor em sua Corte, que sya em audiencia, as ditas declaraçooẽs, e Hordenaçom suso escripta aos vinte e dous dias do dito mes, e Era sobredita”.

– Pedro Alves.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

Andrade, Luís Oliveira; Torgal, Luís Reis (2012). Feriados em Portugal: tempos de memória e de sociabilidade. Imprensa da Universidade de Coimbra.

Abascal, Juan Manuel (2000-2001). La Era Consular Hispana y el final de la práctica epigráfica pagana. In Lvcentvm XIX-XX, págs. 269-292.

Barney, Stephen A.; Lewis, W. J.; Beach, J. A.; Berghof, Oliver (2006). The ‘Etymologies’of Isidore of Seville. Livro V, xxvi., 3.; xxix, 26.Cambridge University Press, págs. 129 e 132.

Barroca, Mário Jorge (2000). Epigrafia Medieval Portuguesa, 862-1422, vol. I. Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Fundação para a Ciência e Tecnologia – Fundação Calouste Gulbenkian, págs. 207-223.

Dias, João Alves (2018). Portugal e a vulgarização da datação do ano pelo modo corrente. In Fragmenta Historica : Revista do Centro de Estudos Históricos. Centro de Estudos Históricos – FCSH-NOVA, Lisboa, p. 11-14.

Marasco, Gabriel (Ed.) (2003). Greek & Roman Historiography in Late Antiquity, Fourth to Sixth Centuries AD. Brill, Leiden-Boston, págs. 27, 324 e 499.

Marques, José (2017). A Igreja no tempo de D. Afonso Henriques. Alguns aspectos. In Barroca, Mário Jorge (Coord.), No Tempo de D. Afonso Henriques. Reflexões sobre o primeiro século português. CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, págs. 50-51.

Moreno, Humberto Baquero (1988). Os itinerários de el-rei Dom João I : 1384-1433. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, págs. 174-175.

Ordenações Afonsinas, Livro IV, Títulos I e LXVI.

Rohrbacher, David (2002). The Historians of Late Antiquity. Routledge, Nova Iorque – Londres, págs. 138-142.

Mitos e lendas da História de Portugal: o Pinhal de Leiria

Imagem de sector do pinhal de Leiria anterior ao incêndio de 2018.

O poema Ai flores, ai flores do verde pino, de D. Dinis, registado no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, compilado em Itália em 1525-1526 a partir de uma possível cópia do cancioneiro perdido do conde D. Pedro de Barcelos.

Como sabem, um dos objectivos desta página sempre foi esclarecer mitos e lendas comuns quando se fala da Idade Média, quer portuguesa, quer geral. E hoje voltamos a ele, com um caso paradigmático na cultura portuguesa: o Pinhal de Leiria. Com um papel consagrado na cultura portuguesa, como a tal atesta facilmente o poema dedicado por Fernando Pessoa a D. Dinis (r. 1279-1325) em A Mensagem, a história colou-se à imagem do sexto rei de Portugal, ajudado certamente pela sua brilhante trova Ai flores, ai flores do verde pino e a reputação dúbia de O Lavrador. Daí parte da comoção com o desaparecimento de cerca de 80% desta floresta no calamitoso incêndio em 2018. Mas será a reputação de D. Dinis imerecida – ou, pior até, totalmente falsa?

Recuemos algumas centenas de anos. Os pinheiros só se tornaram dominantes na paisagem florestal portuguesa a partir do século XIX, embora já viessem a ganhar terreno desde o século XIII. Contudo, se as florestas primitivas portuguesas não eram dominadas por coníferas, estas não eram completamente desconhecidas no território português: desde tempos imemoriais, crescia uma espécie de pinheiro geresiano em zonas montanhosas como a Serra da Estrela. De igual forma, vingavam também pinheiros-mansos no litoral silicioso da Estremadura, em zonas como as costas arenosas dos actuais distritos de Leiria ou Aveiro, que as árvores de folha caduca dificilmente colonizariam. É este o caso do nosso Pinhal: possui origens pré-históricas, que alastrou pelo território ao longo das eras e com muita acção humana. Assim, é bem possível que a sua população fosse originalmente composta maioritariamente por pinheiros-mansos e tenha lentamente mudado ao longo do último milénio para uma maioritariamente de pinheiros-bravos.

Reprodução do selo de autoridade de D. Dinis, em que aparece o monarca a cavalgar com escudo e vestes com o símbolo da casa real portuguesa, que usaria pelo menos em algumas ocasiões. Este tipo de selo era muito usado na época pelos vários reis da Cristandade Latina.

Então, de onde surgiu a história da plantação por D. Dinis? Nenhuma fonte das chancelarias do reinado menciona tal plantação nessa área. Também o conde D. Pedro de Barcelos, filho bastardo do rei português, ignorou completamente a questão na sua obra, tal como fariam mais tarde o autor da Crónica de Portugal de 1419 (provavelmente Fernão Lopes) ou Rui de Pina. Como esclareceu o biógrafo de D. Dinis, José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a primeira menção do plantador só aparece em 1594, no Diálogos de Vária História de Pedro Mariz, que constitui a primeira fonte a partir da qual toda a desinformação provém.

Iluminura do Códice Rico das Cantigas de Santa Maria. Esta iluminura é parte de um fólio de 6 iluminuras a contar visualmente a história da cantiga 266, sobre um milagre mariano relacionado com a construção de uma igreja em Castrojeriz (Castela). Nesta imagem vemos o transporte de madeira necessário para os andaimes e estruturas da igreja, para além de toda uma série de outros objectos, como imagens de culto.
Jardinagem e corte de árvores em primeiro plano nesta iluminura com representação do mês de Março do The Golf Book, um livro de horas iluminado por Simão Benning em c. 1540. The British Library, MS 24098, fl. 20v.

Mesmo assim, esta lenda tem algumas bases históricas. Em primeiro lugar, sabemos que D. Dinis promoveu o ordenamento do território (!) da região, ao drenar pântanos, arrotear pauis, fixar dunas e promover o povoamento da zona ao fundar povoações como Parede ou Monte Real. Há autores como Saul António Gomes, que também admitem alguma replantação de árvores num pinhal pré-existente desde tempos imemoriais. Esta possibilidade, embora pudesse explicar a origem da lenda, carece de uma base documental segura. A história da plantação por D. Dinis não passa, portanto, de uma lenda sem provas, enquanto a atribuição “rival” ao pai, Afonso III, é uma completa fantasia (cuja origem gostaria de saber). Mas mais importante do que isso, o “decantado mito” (para citar Sotto Mayor Pizarro) do Pinhal de Leiria acaba por reflectir algo bem mais concreto: a reflorestação do território com pinheiros em finais da Idade Média, por iniciativa de nobres e prelados.

Nesta representação do mês de Fevereiro de As Muito Ricas Horas do Duque de Berry, dos irmãos Limbourg, vemos um homem a cortar uma árvore com um machado e a centralidade da madeira como material de construção na Idade Média. Musée Condé, MS 65, fl. 2v.

Devido ao crescimento demográfico da Plena Idade Média (séculos XI-XIII) e ao uso extensivo da madeira em todos os domínios da vida quotidiana, das casas e barcos aos instrumentos de cozinha ou como lenha, e tal como em outros reinos europeus como Inglaterra, houve uma enorme desflorestação do território, que já no século XIII apresentava penúria de florestas em áreas como o Entre Douro-e-Minho (!). Ainda que minorada pelas crises tardo-medievais, que possibilitaram alguma recuperação da cobertura florestal, a degradação ecológica era visível, por essa nova expansão ter acontecido principalmente devido ao mato e não aos primitivos bosques. Só isto explica porque é que na época dos Descobrimentos o reino tinha de importar madeira ou até tabuados e mastros de locais como a Flandres ou a Escandinávia, de modo a compensar estas carências. Outro modo de o fazer era precisamente plantando árvores, e a árvore utilizada era o pinheiro-bravo por uma série de razões: crescia rapidamente, tudo servia de lenha, a madeira era boa, permitia o crescimento de boa cama para o gado, também em expansão em finais da Idade Média, e ajudava ainda a afastar os javalis (algo muito popular para os lavradores, certamente). Havia, porém, um senão: o empobrecimento dos solos por “podzolização”, o que no fundo acaba por ser uma espécie de lixiviação da terra onde os pinheiros se inserem, com a consequente pobreza do solo em húmus, perda de biodiversidade e erosão acelerada dos terrenos.

Carpinteiros representados no tecto da catedral de Teruel.

Por isso, à custa de madeira boa e barata, Portugal comprometia ainda mais os ecossistemas existentes no seu território e a sua rentabilidade agrícola, o que se reflecte em queixas de Capítulos de Cortes do século XV por parte dos concelhos a dizer que os solos já tinham produzido muito mais do que o faziam na época. Para tal situação, contribuiria muito provavelmente a degradação dos solos por acção das novas árvores. Ou seja, bem longe da imagem que se ouviu no ano passado de um rei plantador de árvores e até “ecologista”, que ainda aparece de vez em quando nas redes sociais, a lenda de D. Dinis e do Pinhal de Leiria deve ser, a meu ver, interpretada exactamente como símbolo da degradação ecológica e do histórico mau ordenamento geral do território em Portugal. E, sinceramente, não consigo parar de pensar no modo como hoje se repete a asneira ainda mais intensamente, tanto com pinheiros como eucaliptos. Não sei se a História se está fadada a repetir, até por causa do contexto muito diferente de uma sociedade (pós-)industrial, mas claramente Portugal nunca aprendeu com os erros na área florestal…

Fontes:

Gomes, Saul António (2002). Introdução à História do Castelo de Leiria. Câmara Municipal de Leiria, 2ª edição (revista e ampliada), pág. 20.

Marques, A. H. de Oliveira (1986). Nova História de Portugal, vol. IV, Portugal na Crise dos Séculos XIV e XV. Editorial Presença, págs. 101-103.

Marreiros, Rosa (1996). Poder Sobre a Terra – Suporte Socioeconómico dos Grupos Sociais. In Marques, A. H. de Oliveira (Coord.), Nova História de Portugal, vol. III, Portugal em Definição de Fronteiras. Editorial Estampa, pág. 192.

Pizarro, José Augusto de Sotto Mayor (2007). D. Dinis. Um Génio da Política. Temas & Debates, 2ª edição, págs. 220-221, 263 e 333.

Sousa, Armindo de (1997). Condicionamentos Básicos. In Mattoso, José (Coord.), História de Portugal, vol. II, A Monarquia Feudal, 1096-1480. Editorial Estampa, págs. 268-275.

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~ José